Acerca de Real e Militar Ordem de São Miguel

EXPLICAÇÃO DA CAVALARIA

A providência nada faz sem que tenha um propósito. Deveis conhecer o que a tradição diz daqueles que são a semente de boa colheita, daqueles que possuíam o talento de bem-fazer. Houve um Príncipe, que certamente conheceis, que viveu vida venturosa e cheia de glórias de Cavalaria.

Chamava-se Afonso Henriques e foi o Pai de Portugal. Nele encontrareis grandes coisas sobre que meditar. Por isso bons Cavaleiros, tenhamos fé, muita esperança em Nosso Senhor, o dia de amanhâ, em que com a sua graça venceremos a batalha; será de tanto prazer para nós que cuidando nisso se faz ligeiro o trabalho.

Nós lutamos por Deus, pela fé, pela verdade. E a Deus que devemos a mercê de sermos Cavaleiros. O renascimento da Cavalaria por Ordens antigas e novas não se fará por decretos das autoridades soberanas, mas pela vontade de conversão e de serviço, dos próprios Cavaleiros. Também se não fará na anarquia, mas no reconhecimento de um certo número de princípios tradicionais, os únicos capazes de afastar as pseudo-cavalarias que exploram sem vergonha a ingenuidade e a vanglória de muitos dos nossos contemporâneos.

Deve voltar às fontes da simplicidade primitiva, no sentido do desapego; deve encontrar de novo o ardor no combate pela justiça e pela paz, o espírito da sua missão e da graça que o acompanha, missão e graça simbolizadas pelo ritual de ser armado Cavaleiro. É dizer que a Cavalaria, no seu ressurgimento actual, não se deixará regular por considerações jurídicas ultrapassadas, que confundem, frequentemente Ordem com distinção honorífica.

Digamo-lo claramente: este aspecto tardio da tradição Cavaleiresca, por mais legítimo que seja, não nos interessa. Os antigos Cavaleiros vêem na Cavalaria outra coisa diferente de uma decoração. Não são Reis nem Príncipes que fundam a Cavalaria e as Ordens de Cavalaria. Pertencer a uma Ordem regular e militante, com a disciplina espiritual, moral, familiar, e social que isso supõe, é muito desejável para quem quiser combater sob o estandarte de Cristo-Rei.

A Cavalaria é uma instituição originariamente militar e religiosa cujo fim é de alargar cá em baixo as fronteiras do reino de Deus. Pelo serviço e defesa dos fracos, da justiça da paz. Visa estabelecer a cidade temporal sobre os fundamentos da ordem natural e princípios do Evangelho, no respeito das liberdades essenciais do homem e das comunidades humanas. Toda a cavalaria procura primeiro o Reino de Deus; e aí sua justiça, sabendo que o resto, isto é, a paz na terra e os benefícios que dai decorrem, virão por acréscimo.

A Cavalaria, como tal, não serve um Estado ou grupo de Estados, nem uma causa política ou dinástica, nem interesses de classe, nem o que quer que seja de puramente temporal. A Cavalaria está ao serviço da Cristandade. É universal como ela. Encontrando-se ao serviço da unidade em Cristo. Para estar ao serviço da Cristandade, a Cavalaria não deixa de inculcar os deveres para com a Pátria. Mais do que qualquer cidadão, o Cavaleiro deve amar e servir o seu País, até derramar o seu sangue por ele, se for preciso.

Toda a Cavalaria é um serviço social e cívico em vista do bem comum da humanidade. A força Cavaleiresca, sob qualquer forma que seja, deve ser sempre utilizada para a salvaguarda da liberdade das consciencias e dos direitos da verdade, jamais para impor a Fé. A tradição mais antiga da Cavalaria reconhece em Maria, a Dama por excelência dos Cavaleiros e no Arcanjo Miguel, Príncipe dos Anjos, vencedor do Dragão, o seu nobre modelo e o Grão -Mestre celeste de toda a Cavalaria, para o serviço de Cristo-Rei.